Luc Ferry é um filósofo francês, professor de filosofia, e político engajado. Foi Ministro da Educação da França entre 2002 a 2004.
Tem uma vasta Bibliografia.
Em 2006 publicou o livro Aprender a Viver, o qual logo ficou entre os mais
vendidos. Na obra ele mostra como a sabedoria pode ser o caminho para uma vida
melhor, de uma maneira simples sem ser simplista.
Vamos partir de uma consideração muito simples, mas que é questão central de toda filosofia e de toda religião:
O ser humano é mortal, um
ser finito, limitado no tempo e no espaço. Entretanto, diferente dos animais, é
o único que tem consciência de que um dia vai morrer.
E é na tentativa de se
livrar da ideia da morte, que o homem criou as religiões ou fez filosofia.
A religião promete a
salvação, eliminando a ideia da morte com a ideia da vida eterna. Ou seja, somente
pela fé em Deus alcançaremos esta salvação.
A filosofia, por outro
lado, também pretende nos salvar, senão da morte, pelo menos das angústias que
ela provoca. Para isso conta com nossas próprias forças e utiliza apenas nossa
razão.
A filosofia, diferente da religião, não
elimina a ideia da morte, ao contrário ela nos ensina a morrer.
“Mortalidade” + “Consciência de ser mortal”
Esta equação foi enfrentada ao longo da
história de diversas maneiras:
Para os gregos antigos a
essência mais intima do mundo é a harmonia e a ordem, simultaneamente bela e
justa, a qual chamavam de Cosmos ou razão universal. Uma estrutura viva,
perfeita, divina e racional. O todo a qual tudo está contido.
Para eles a morte não é
para ser temida, ela é apenas uma passagem, pois somos um fragmento eterno do
Cosmos. Já que o universo é eterno, e nós somos para sempre um fragmento dele,
não deixaremos jamais de existir. A morte não seria um aniquilamento, mas um modo
diferente de ser.
Acreditavam que nesta
fusão com o cosmos, o homem passaria de um estado pessoal e consciente para um
estado impessoal e inconsciente, sem individualidade, ou seja, o indivíduo
deixaria de ser o que é para se tornar um fragmento cósmico.
Para atingir esta salvação, para vencer o medo da morte, os
gregos tinham que se esforçar para compreender a ordem cósmica; em seguida,
fazer de tudo para imitá-la, e finalmente fundir-se nela e encontrar seu lugar na
eternidade.
Esta foi a solução encontrada
pelos gregos antigos para a salvação da morte.
A vitória do Cristianismo sobre a filosofia grega
Com a chegada do cristianismo
o divino deixa de ser a ordem cósmica para encarnar em uma só pessoa – o
Cristo. Para conseguir a salvação não se trata mais de pensar por si mesmo, mas
de ter confiança num Outro. Esta é uma diferença profunda entre filosofia e
religião.
O cristianismo promete a
imortalidade pessoal, e não mais uma espécie de eternidade anônima e cósmica na
qual somos apenas um fragmento inconsciente no universo.
O indivíduo permanece ele
mesmo, com sua alma, com seu corpo, seu rosto e sua consciência. Esta salvação só
é possível pela graça de Deus. A resposta cristã é irresistível, é melhor e
seguramente a mais eficaz de todas.
A ideia de salvação do
Cristianismo vence aquela oferecida pela filosofia grega, mas nos convida a
limitar o uso da razão dando lugar a fé como única forma de entrar em contato
com o Divino.
O mundo moderno vai
nascer com a reavaliação dos dogmas da religião e o enfrentamento de sua
autoridade. Mas também vão contra a
interpretação dos gregos antigos sobre a harmonia do universo.
Para os modernos o mundo não
é acabado, não é ordenado, mas sim, caótico e desprovido de sentido, um campo
de forças e de objetos que se chocam.
Nesta época a física
moderna fragilizou os princípios da religião cristã. Temas como a idade da
terra, sua situação em relação ao Sol, a data do nascimento do homem e a teoria
das espécies abalaram a autoridade da religião. O homem moderno adquiri uma
atitude de dúvida e espirito crítico.
As antigas soluções de
salvação se tornam cada vez mais fracas diante da ciência.
No mundo moderno o homem se encontra só,
privado do socorro do cosmos e de Deus. Ficou órfão.
E agora? Como enfrentar a
finitude da existência, a morte de todas as coisas, se não há mais um princípio
superior a recorrer?
Os pós-modernos criaram utopias
humanas, por demais humanas, para tentar a salvação:
Foi o período da criação
das religiões de salvação terrestre:
o cientificismo, o patriotismo, o nazismo, o comunismo
e demais “ismos”.
Não tendo uma ordem
cósmica e não mais acreditando em Deus, os pós-Modernos inventaram religiões
sem Deus: agarraram-se em ideologias que pudessem dar um sentido a existência
humana e que se justificassem a ponto de viver ou morrer por elas.
Tiveram o trágico mérito
de reinventar ideais superiores, mas diferente dos gregos e dos cristãos,
buscaram a salvação na própria humanidade.
Salvar a vida ou
justificar a morte tem o mesmo sentido quando se sacrifica por uma causa
superior: a revolução, a pátria, a ciência.
Com estes novos ídolos salvaram sua fé e
escaparam do medo da morte, entretanto ao preço de muito sangue derramado.
Uma
proposta de salvação para os tempos atuais:
Se
não temos a salvação da morte pelo cosmos, pela religião, pela ciência ou por
ideologias, temos que tentar outra solução.
Uma
solução humanista que encontre um novo modo de responder à questão do sentido
da vida.
O Pensamento alargado
Em oposição ao pensamento
limitado o pensamento alargado é aquele que consegue arrancar-se de si para se
colocar no lugar do outro. O objetivo não é somente para compreendê-lo, mas
também, no momento em que se volta para si, olhar seus próprios juízos do ponto
de vista do outro.
Como alguém já disse: é
preciso sair da ilha para ver a ilha.
Assumindo o ponto de
vista dos outros, o espírito alargado consegue contemplar o mundo como um espectador
interessado e bem-intencionado. Poderíamos chamar este processo de humanização
do humano. É neste ponto que a questão do sentido e da salvação se unem.
O Livro Aprender a Viver
de Luc Ferry nos deixa uma profunda mensagem para reflexão:
“Para
que serve envelhecer? Para isso, e talvez para mais nada.
Para
alargar a visão,
aprender
a amar a singularidade dos seres, assim como a das obras,
e
ás vezes, quando esse amor é intenso,
viver a supressão do tempo que sua presença pode
nos dar.”
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