quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Aprender a Viver - Luc Ferry

 Luc Ferry é um filósofo francês, professor de filosofia, e político engajado. Foi Ministro da Educação da França entre 2002 a 2004.

Tem uma vasta Bibliografia. Em 2006 publicou o livro Aprender a Viver, o qual logo ficou entre os mais vendidos. Na obra ele mostra como a sabedoria pode ser o caminho para uma vida melhor, de uma maneira simples sem ser simplista.

Vamos partir de uma consideração muito simples, mas que é questão central de toda filosofia e de toda religião:

O ser humano é mortal, um ser finito, limitado no tempo e no espaço. Entretanto, diferente dos animais, é o único que tem consciência de que um dia vai morrer.

E é na tentativa de se livrar da ideia da morte, que o homem criou as religiões ou fez filosofia.

A religião promete a salvação, eliminando a ideia da morte com a ideia da vida eterna. Ou seja, somente pela fé em Deus alcançaremos esta salvação.

A filosofia, por outro lado, também pretende nos salvar, senão da morte, pelo menos das angústias que ela provoca. Para isso conta com nossas próprias forças e utiliza apenas nossa razão.

 A filosofia, diferente da religião, não elimina a ideia da morte, ao contrário ela nos ensina a morrer.

“Mortalidade” + “Consciência de ser mortal”    

Esta equação foi enfrentada ao longo da história de diversas maneiras: 

 A resposta da salvação na Filosofia grega

Para os gregos antigos a essência mais intima do mundo é a harmonia e a ordem, simultaneamente bela e justa, a qual chamavam de Cosmos ou razão universal. Uma estrutura viva, perfeita, divina e racional. O todo a qual tudo está contido.

Para eles a morte não é para ser temida, ela é apenas uma passagem, pois somos um fragmento eterno do Cosmos. Já que o universo é eterno, e nós somos para sempre um fragmento dele, não deixaremos jamais de existir. A morte não seria um aniquilamento, mas um modo diferente de ser.

Acreditavam que nesta fusão com o cosmos, o homem passaria de um estado pessoal e consciente para um estado impessoal e inconsciente, sem individualidade, ou seja, o indivíduo deixaria de ser o que é para se tornar um fragmento cósmico.

Para atingir esta salvação, para vencer o medo da morte, os gregos tinham que se esforçar para compreender a ordem cósmica; em seguida, fazer de tudo para imitá-la, e finalmente fundir-se nela e encontrar seu lugar na eternidade.

Esta foi a solução encontrada pelos gregos antigos para a salvação da morte.

A vitória do Cristianismo sobre a filosofia grega

Com a chegada do cristianismo o divino deixa de ser a ordem cósmica para encarnar em uma só pessoa – o Cristo. Para conseguir a salvação não se trata mais de pensar por si mesmo, mas de ter confiança num Outro. Esta é uma diferença profunda entre filosofia e religião.

O cristianismo promete a imortalidade pessoal, e não mais uma espécie de eternidade anônima e cósmica na qual somos apenas um fragmento inconsciente no universo.

O indivíduo permanece ele mesmo, com sua alma, com seu corpo, seu rosto e sua consciência. Esta salvação só é possível pela graça de Deus. A resposta cristã é irresistível, é melhor e seguramente a mais eficaz de todas.

A ideia de salvação do Cristianismo vence aquela oferecida pela filosofia grega, mas nos convida a limitar o uso da razão dando lugar a fé como única forma de entrar em contato com o Divino.

 Filosofia Moderna

O mundo moderno vai nascer com a reavaliação dos dogmas da religião e o enfrentamento de sua autoridade.  Mas também vão contra a interpretação dos gregos antigos sobre a harmonia do universo.  

Para os modernos o mundo não é acabado, não é ordenado, mas sim, caótico e desprovido de sentido, um campo de forças e de objetos que se chocam.

Nesta época a física moderna fragilizou os princípios da religião cristã. Temas como a idade da terra, sua situação em relação ao Sol, a data do nascimento do homem e a teoria das espécies abalaram a autoridade da religião. O homem moderno adquiri uma atitude de dúvida e espirito crítico.

As antigas soluções de salvação se tornam cada vez mais fracas diante da ciência.

 No mundo moderno o homem se encontra só, privado do socorro do cosmos e de Deus. Ficou órfão.

E agora? Como enfrentar a finitude da existência, a morte de todas as coisas, se não há mais um princípio superior a recorrer?

 Modernidade

Os pós-modernos criaram utopias humanas, por demais humanas, para tentar a salvação:

Foi o período da criação das religiões de salvação terrestre:

 o cientificismo, o patriotismo, o nazismo, o comunismo e demais “ismos”.

Não tendo uma ordem cósmica e não mais acreditando em Deus, os pós-Modernos inventaram religiões sem Deus: agarraram-se em ideologias que pudessem dar um sentido a existência humana e que se justificassem a ponto de viver ou morrer por elas.

Tiveram o trágico mérito de reinventar ideais superiores, mas diferente dos gregos e dos cristãos, buscaram a salvação na própria humanidade.

Salvar a vida ou justificar a morte tem o mesmo sentido quando se sacrifica por uma causa superior: a revolução, a pátria, a ciência.

 Com estes novos ídolos salvaram sua fé e escaparam do medo da morte, entretanto ao preço de muito sangue derramado.

 

Uma proposta de salvação para os tempos atuais:

Se não temos a salvação da morte pelo cosmos, pela religião, pela ciência ou por ideologias, temos que tentar outra solução.

Uma solução humanista que encontre um novo modo de responder à questão do sentido da vida.

O Pensamento alargado

Em oposição ao pensamento limitado o pensamento alargado é aquele que consegue arrancar-se de si para se colocar no lugar do outro. O objetivo não é somente para compreendê-lo, mas também, no momento em que se volta para si, olhar seus próprios juízos do ponto de vista do outro.

Como alguém já disse: é preciso sair da ilha para ver a ilha.

Assumindo o ponto de vista dos outros, o espírito alargado consegue contemplar o mundo como um espectador interessado e bem-intencionado. Poderíamos chamar este processo de humanização do humano. É neste ponto que a questão do sentido e da salvação se unem.

 


O Livro Aprender a Viver de Luc Ferry nos deixa uma profunda mensagem para reflexão:

“Para que serve envelhecer? Para isso, e talvez para mais nada.

Para alargar a visão,

aprender a amar a singularidade dos seres, assim como a das obras,

e ás vezes, quando esse amor é intenso,

 viver a supressão do tempo que sua presença pode nos dar.”

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